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A Vida



Por: Thaís Lauton Escanhoela - Estudante de Jornalismo - Universidade Metodista.

Ser anjo, bruxo, amigo, inimigo, Deus e o Diabo, sendo sempre alvo de críticas tanto construtivas quanto destrutivas, estando sempre entre o Bem e o Mal, ou melhor, acima do Bem e do Mal, sem qualquer preconceito a nada e ninguém é uma das características, senão principais, mais determinantes para o sucesso desse ser tão surpreendente que é o artista.
No entanto, esta característica tão gloriosa que faz do artista um espelho para a vida real de tantas pessoas nem sempre é alcançada por todos que embarcam nesta carreira. É preciso acreditar no que se está fazendo, ou seja, viver os personagens intensamente, com sentimentos verdadeiros. Essa é a opinião de Christiane Torloni - Quando interpreto uma personagem, vivo a sério todos os seus sentimentos e emoções. A grande graça de ser atriz é não passar impunemente pelas vivências das personagens. confessa a atriz em entrevista à jornalista Márcia Peltier, 1998.
Dificuldades e insegurança são fatores constantemente presentes nesta carreira, principalmente no início, porém poucos são audaciosos ao ponto de ir em busca do que realmente acredita ser um dom.
Apesar de ser filha dos atores Geraldo Matheus e Monah Delacy - que eram da primeira turma da Escola de Arte Dramática de São Paulo, a mais importante do Brasil, Christiane confessa que durante muito tempo teve dúvidas a respeito de seguir a mesma carreira dos pais. Ou melhor, Christiane afirma que não é atriz por profissão, mas sim por vocação, “Jamais escolheria a carreira de atriz, ela é que me escolheu, disse a atriz em entrevista à revista Desfile, em 1997.
Desde os 6 anos a atriz já brincava de encenar e aos 12 anos já encenava uma princesinha no teatrinho Trol, na TV Tupi.
Justamente por estar tão próxima das dificuldades em ser atriz, Christiane nunca teve ilusões quanto a profissão. No entanto, a decisão em ser atriz aconteceu em 1975, quando aos 19anos a atriz fez um curso de teatro dirigido por Jaime Barcelos, no IBAM. O curso, além de um elenco de mestres como Glorinha Beuttenmuller e Luís de Lima, foi a prova de fogo para a decisão em seguir a carreira porque ao final a atriz teria que encenar um texto de Antônio Bivar, passando por uma banca examinadora só de atores consagrados, entre eles Jô Soares.
Christiane descreve que o pânico que sentiu durante esta encenação nunca foi tão grande e logo substituído pela certeza absoluta de que aquele era o lugar dela no mundo. Para a atriz, a felicidade que sentiu com essa descoberta somente pôde ser comparada ao nascimento dos filhos gêmeos Leonardo e Guilherme, de seu primeiro casamento com o ator e diretor Dênnis Carvalho.
O que torna o trabalho desta atriz tão admirável é essa sua capacidade de encenar com a alma, sentindo verdadeiramente cada papel.Christiane acredita que essa sua decisão em ser atriz surgiu justamente da necessidade de não ser apenas um, mas muitos, não se aprisionando em uma só imagem, daí a auto-intitular-se camaleônica.A possibilidade é tão vasta que acabo por esgotar todos os pedacinhos que desejo que tenho de ser diferente, disse a atriz em entrevista à revista Amiga, 1995.
No entanto, nem tudo são flores nesta carreira, aparentemente, tão glamourosa de atriz. Christiane já viveu experiências amargas, tanto em sua vida pessoal como profissional. Em 1991, a atriz perdeu o filho gêmeo Guilherme, de 12 anos em um acidente, na garagem do condomínio onde morava, o que levou a atriz a mudar para Portugal porque precisava estar só, viver o luto que sua alma necessitava. Acho que foi um tranco tão forte, tão poderoso que tive de parar para reavaliar tudo. Coisas que tiravam a gente do sério passam anão ter mais importância, e coisas que não tinham a menor importância passam a ser essenciais, porque a vida muda, e a minha mudou. Eu vivia um dia depois do outro, agora vivo uma hora depois da outra. E posso ter perdido alguém, mas não perdi todos os meus alguéns. Eu tenho pai, mãe, uma pessoa que me ama e me acompanha, amigos e meu filho, Léo. De seis anos para cá, tenho tido provas de que sou necessária à vida dessas pessoas. É fundamental saber que você é necessário aos outros, até para poder sobreviver , confessa Christiane à revista Desfile, 1997.
Foi neste momento que Christiane confessa ter recebido uma resposta afetiva imediata de seus pais, amigos e de seu filho, Léo, que lhe deram razões para viver e sobreviver. Christiane ainda acrescenta Quando fico com saudades do Guilherme, penso nos que perderam todas as suas referências afetivas e têm motivos para estar mais tristes do que eu. Penso nas pessoas para as quais sou importante e aí consigo vencer a tristeza.
Com essa necessidade em estar só, a atriz viveu por dois anos e meio em Portugal, na cidade de Cascais, a 22 Km de Lisboa, e em 1993, Christiane trabalhou ao lado do diretor José Possi Neto na produção da peça Dez elevado a menos 43 - Êxtase.
Apesar de confessar que também temos que aprender com o que não dá certo, essa foi mais uma difícil experiência para a atriz, pois antes mesmo da estréia, Christiane já sofria duras críticas da imprensa por ter recebido subsídios de uma instituição governamental, fato este que somado a transferência da peça de Lisboa para o Porto, foram sugando energias dela e de José Possi Neto, que eram os únicos brasileiros em toda esta produção. Essa experiência tornou Christiane a atriz mais polêmica em Portugal, no entanto a atriz declara que não se zanga com críticas (desde que inteligentes), pois a sua própria crítica já é insuportável.
Christiane declara que a experiência na política - durante as diretas já - foi muito importante porque lhe ensinou a não ter medo de governo. Justamente com essa personalidade forte e decidida foi que a atriz, ao retornar ao Brasil, lutou ao lado do diretor José Celso Martinez Corrêa para a reabertura do Teatro Oficina, onde logo depois encenaria Ham-let, em 1994. Não sou do time das sonhadoras, sou do time das realizadoras.
Realmente realizar e reabrir são verbos bastante conjugados na vida de Christiane. Em 1997, a atriz reinaugurou o Teatro Adolpho Bloch, com a peça Salomé, que exigiu muita disciplina de La Torloni. A atriz parou de fumar e começou a fazer aulas de dança, o que a ajudou a manter a resistência necessária para as quase 10 horas de ensaios diários durante meses. Nem é preciso dizer o quanto a atriz é audaciosa em seus trabalhos. Sua explicação para essa necessidade é clara e objetiva o gostinho de incompleto é que me leva em busca de novos desafios. No entanto a atriz confessa que Salomé foi o seu trabalho mais completo, um salto final para o delírio e a paixão.
Essa necessidade de estar sempre bem não se dá somente em sua vida profissional, ao contrário, sua vida pessoal se reflete no sucesso de suas atuações. Tanto a serenidade visível em seu rosto, como a leveza de seu corpo, são trabalhadas em aulas de dança oriental, natação, esgrima e passeios a cavalo - uma paixão que se dá a anos. Christiane confessa que tem necessidade de brincar com seu corpo, talvez essa seja a explicação para a tão perfeita combinação entre a sua fala e a de seu corpo, durante suas encenações.
Aos seus 41 anos de idade e 22 anos de carreira, La Torloni- que estreou na Globo aos 19 anos - acredita que está melhor do que começou, na arte de encenar. Para a atriz, a TV tem sido uma grande escola, por isso se considera uma autodidata. No entanto, a sua necessidade de teatro revela-se em suas próprias palavras, Quando me dou conta que estou dentro da história, já não há julgamento de valor algum, a psicanálise ou o racionalismo ou as justificativas já não mais estão valendo e nem percebo, tomada de emoção, a loucura que é alguém pedir a cabeça de uma outra pessoa! Incessantemente, incansavelmente, obsessivamente ao fazer isso em cena, todas as minhas resistências se rompem, o tempo pára, não sou mais quem está ali, é a personagem. Teatro é isso, por isso é essa coisa maravilhosa e, que os deuses nos ouçam, eterna!
Christiane acrescenta, em uma entrevista à revista Manchete, 1997, que mesmo quando está doente se cura em cena, isso porque o teatro alimenta realmente, ele é uma espécie de pão e vinho do espírito, Porque o ator é como alcoólatra, quem é ator jamais deixará de sê-lo, mesmo que não esteja atuando, não haverá AA, atores anônimos, que o cure. Dizem que é uma profissão de fé, mas deve estar ligada a algum tipo de moléstia, ao mesmo tempo em que às vezes é remédio para certas doenças. Há um lado curativo nessa profissão, sim.
É lógico que todo esse vigor em atuar com a alma não deve vir apenas desta ânsia em enfrentar novos desafios. Nascida no Belenzinho, esta aquariana tem provado que a família contribuiu muito para o seu sucesso. Embora a família nunca tivesse sido rica, Christiane afirma que materialmente nunca tinha lhe faltado nada. Sua mãe e suas tias sempre se vestiram divinamente bem e sua avó, que era modista, cheirava o tecido como perfume antes de trabalhá-lo e o cortava sem modelagem, no olho, igual jogador de sinuca, assim, a atriz afirma meu background era essa magia toda. E fora disso, nada me fez falta na vida, jamais. Para mim, o que não pode faltar é a poesia. E o amor.
Toda essa característica zen de Christiane é resultado de muita obstinação. La Torloni tem se mostrado uma vencedora em toda essa sua talentosa carreira. E uma explicação para todo esse desempenho pode ser esta afirmação da atriz Acredito totalmente no destino e sou condutora dele.
Embora não tenha uma religião específica, ao longo dos anos, Christiane tem tido muito contato com o misticismo em seus trabalhos. Por isso afirma que faz meditação duas vezes por dia, uma maneira de se recolher quando não está bem, como os bichos. Acredito que Deus está em todos os lugares e não emparedado dentro de uma única religião. A morada do senhor não é apenas a Igreja, mas em todos os lugares e, também nas pessoas.
Definir Christiane Torloni com uma palavra apenas seria uma tarefa impossível, no entanto, existem algumas que dão idéia do que tem sido esta atriz: talentosa, sensível, audaciosa, forte, profissional, inteligente, bonita e feliz. Essa felicidade que a atriz demonstra a cada nova entrevista pode ser a resposta de um relacionamento bastante estável que Christiane tem vivido com o diretor Ignácio Coqueiro, há mais de dois anos.
Não agüento as pessoas que ficam testanto o poder sobre o outro. Quero crescer ao lado do Ig; ele combina com meu lado moleque, confessa a atriz à revista Caras, 1998. Com Ignácio, Christiane afirma que não quer se casar, na verdade quer namorar, sempre, cada um tendo a sua casa. Talvez essa decisão tenha acontecido em decorrência dos 3 casamentos que a atriz teve, o primeiro, com o ator e diretor Dênnis Carvalho, o segundo, com o psicanalista, Eduardo Mascarenhas e o terceiro, com o artista plástico Luiz Pizarro.
Quanto aos seus 40 anos, Christiane afirma que completar esta idade nunca lhe trouxe problema algum, ao contrário, faz questão de todos os dias que viveu, e não quer voltar nenhum. A passagem do tempo para a atriz é boa. A única crise que eu poderia ter era de felicidade. Está tudo maravilhoso na minha vida. Agora, é só esperar para dar boas vindas aos netos , afirma a atriz à revista Caras, 1998.
Essa é um pouco da vida desta atriz que conquistou fãs em todos os lugares e que levou a produção desta página na Internet. Para definir a ânsia desta atriz durante todos esses anos de carreira e vida pessoal admiráveis só mesmo uma frase da própria estrela: O ideal é experimentar tudo. Namorar, noivar, casar, ter filhos, criá-los, casá-los, perdê-los. As pessoas têm de experimentar a vida.